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terça-feira, 12 de abril de 2011

A Primavera sentou-se à minha janela
Esta noite
A Primavera dormiu
Talvez
Olhando para mim

E talvez
Sonhasse com a Primavera
Sentada à minha janela
Sorrindo em segredo
Para mim

Vi crescer a flor da árvore
Cair a fruta quente
Rir a cara, a boca, o beijo

E vi o sonho morno da noite
Passar
Por mim.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Acordar

Acordar com a luz parda da madrugada
Sem estrelas nem pássaros
Afinal é só um acordar
Sem festa
Imaginava cores de sonho, borboletas doidas
Vejo nuvens pesadas
Acordei de olhos fechados
O filme já acabou
Custa tanto acender a luz no quarto escuro
Basta acordar
Para sentir o peso lento
De um gesto
Repetido a contra-gosto.

domingo, 27 de junho de 2010

SIM/NÃO

Sim, agarraria a tua mão desaparecida

Sim, procuraria a tua boca já distante

Sim, por ti faria a loucura parecer tranquila

E a dor ter a cor do beijo

Sim, por ti imaginaria uma história bonita

Que acabaria onde as outras começam

Sim, acomodo os meus braços ao vazio

Aconchego o coração nas nuvens da noite fria

Sim, digo que sim

Para ouvir em mim o teu eco.

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Não, não ficarei feliz quando partires

Não, não saberei mudar o choro em riso

Nem a dor em esperança

Não, não saberei cuidar de mim

Não saberei se o amor vive sem os beijos

Não, não sentirei o teu coração bater comigo

Não poderei preencher o vazio dos meus braços

Com palavras sensatas e distantes

E o não

Como farei para apagar a sombra

Desta palavra que cresce, se arrasta

Trazendo consigo rimas

( e eu que não gosto de rimas)

Que ficarão esperando ( solidão? Rejeição?)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sou filha e mãe

Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

domingo, 18 de abril de 2010

Sem título

Entre palavras vou conhecendo o mundo
E tu,
És o mundo
Entre o teu corpo e o meu, um mundo
Entras e sais, deixas marcas
Choro contigo, rio contigo, e canto sem saber cantar
Entre palavras vais conhecendo o mundo
O quarto não tem janelas nem portas
Nem sempre está onde estou,
É maior
Cheiras a flor
E o quarto é campo
Sabes a sal
E o quarto é mar.

Para a minha filha, Mariana, 1993