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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

terça-feira, 20 de julho de 2010

o remorso de baltazar serapião de valter hugo mãe

Primeiro, o desaparecimento das maiúculas e da pontuação emotiva : por um lado, diz o autor, tem a ver com ele ( com maiúsculas o texto não lhe soa autêntico), por outro lado tem a ver com o ritmo do discurso coloquial. Pronto e ponto de exclamação, porque o autor também perde a paciência.
Agora a história: os Serapião são uma raça amaldiçoada que extermina com requintes de malvadez as fêmeas da família para educá-las e lavar a sua honra. As excepções são a vaca, figura materna e fundadora da família, e o filho mais novo cuja inocência do coração se reflecte na arte de reproduzir a beleza para além da realidade.
Um pouco "Crime e Castigo", um pouco "Otelo" mergulhados num universo medieval (?) onde a realidade exacerbada e a fantasia criam um mundo cruel e delirante cuja escapatória é inevitavelmente a morte.
Aqui coabitam homens e animais, bruxas e feitiços, inferno e sexualidade.
O sofrimento é constante e devastador e Baltazar Serapião não encontrará descanso nem neste, nem em nenhum mundo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Depois de morrer aconteceram -me muitas coisas de Ricardo Adolfo

Este novo escritor ( novo porque não o conhecia e novo porque não é velho, pelo menos pelo ano de nascimento) merece toda a nossa atenção. Com uma voz e um estilo muito próprios, narra neste livro o isolamento dos muitos "transparentes" do século XXI, nos países ricos : os imigrantes ilegais.
A sua narrativa não é melodramática, mas, pelo contrário, deliciosamente irónica e, quase cómica.
Os malentendidos, as barreiras linguísticas, o isolamento interior transformam o quotidiano numa epopeia negra com consequências imprevisíveis e absurdas. É um romance negro de circunstâncias banais. Acompanhamos as desventuras desta família ( pais e filho ) durante vinte e quatro horas, decisivas para a sua existência, através da visão interior do pai que tenta entender e adaptar-se ao que o rodeia. Na impossibilidade de controlar os acontecimentos, improvisa discussões éticas, religiosas e pragmáticas consigo mesmo num diálogo interior que torna simpática esta personagem desprovida de qualquer dimensão heróica. Não entende os outros, não tem qualquer liberdade de alterar o curso das circunstâncias, mas não desiste, continua incansavelmente a reagir a tudo o que o rodeia guiado pela sua leitura deficiente e limitada ( não serão assim todas?) da realidade.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Desistência

Para aqueles que seguem este blog, que eu saiba só um leitor ( mas muito atento),a permanência há meses de 2666 na rubrica Os livros que estou a ler , deve causar alguma admiração ou curiosidade em relação ao livro ou à leitora.
Vou esclarecer qualquer dúvida : o livro está abandonado, esquecido no meio de outros que vou lendo. Não sei se o abandono é definitivo ou passageiro, mas prefiro apagar o seu título.E a verdade é que não me apetece ler esse livro cujas primeiras 400 páginas já percorri : a viagem foi longa ( e não saiu do mesmo sítio).

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Cidade da Alegria de Dominique Lapierre

Iniciei a leitura deste livro com alguma relutância. Ficcionar a miséria e a luta pela sobrevivência, não me parecia a melhor perspectiva para abordar um tema tão chocante, principalmente do ponto de vista ocidental. Sempre considerei, talvez erradamente, que a abordagem das terríveis catástrofes que vitimam as populações mais desfavorecidas era mais destinada a aliviar a consciência dos que vivem na abundância e no desperdício do que os males das populações que vivem e morrem sem esperança de alterar o curso das suas vidas.
No entanto, este relato de experiências frágeis e insignificantes, num mundo de carências e necessidades de toda a ordem, cativou-me.
O bairro da lata mais pobre de Calcutá e os seus habitantes, esquecidos e transparentes aos olhos dos que não partilham o seu destino, transfigura-se num universo onde quem nada tem luta todos os dias por um dia mais. Um universo onde quem quer aliviar um pouco todo este sofrimento tem de aceitar modestamente que nada pode fazer salvo estender ao seu vizinho uma mão caridosa ou dirigir-lhe uma palavra amiga.
O único milagre realizado pelo padre e o médico que partilham o dia-a-dia desta " Cidade da Alegria" é terem visto pessoas onde os outros vêem "gado" para todo o serviço.Devolver o nome próprio a cada pessoa é devolver-lhe a dignidade, até mesmo nas condições mais "desumanas" .O padre rezava por cada um , qualquer que fosse a sua religião, e todos aceitavam as suas preces como um bâlsamo divino.
Como dizia Madre Teresa de Calcutá que se dedicou aos que eram menos que nada, os leprosos,os que nem neste bairro da lata tinham lugar : " Tudo isto é uma gota num oceano, mas o oceano precisa de cada gota."
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Meio Sol Amarelo de Chimamanda Adichie

Nada conheço de África.
Leio alguns escritores africanos cuja língua é o Português. Leio notícias, vejo reportagens, fotografias. Conheço relatos de guerras, massacres, secas, fome e morte ( principalmente através das palavras bem intencionadas de europeus ).
Também recordo algumas campanhas, sempre acompanhadas de belas canções, para ajudar crianças, populações famintas do país X ou Y, algures em África.
Comprei o livro de Adichie após ter visionado o discurso que fez sobre " o perigo da história única".
Ainda bem.
Adichie é uma belíssima escritora nigeriana. A sua história acompanha o tempo trágico da guerra do Biafra através de personagens cuja realidade não é " folclórica ", mas humana, universalmente humana.
E, como diz o europeu que se apaixona por uma mulher nigeriana e pela causa do Biafra ( paixões inseparáveis ): " Não sou eu que devo contar a história desta guerra.".
Adichie conta o amor, o entusiasmo, a violência, o medo, a morte, a coragem e a cobardia. As suas personagens vivem num tempo que as obriga a sobreviver no cenário de horror de uma guerra, que poderia ser qualquer guerra.

sábado, 1 de maio de 2010

Etty Hillesum, Diário

Sábado à noite [ 10 de Outubro de 1942 ]

Creio poder suportar e interiorizar, tudo desta vida e desta época. E se a exaltação for demasiado grande, e se eu não souber mais encontrar solução para ela, nesse caso ainda me restam duas mãos juntas e um joelho dobrado. É um gesto que não nos foi transmitido a nós judeus, de geração em geração. Aprendi-o com dificuldade. É o legado mais precioso do homem cujo nome já quase esqueci, mas cuja melhor parte eu continuo a viver.
Como essa foi na realidade uma história estranha da minha parte: essa da rapariga que não conseguia ajoelhar-se. Ou, com uma variante: a da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto mais íntimo, mais íntimo do que os que tenho ao estar junta com um homem. No fim de contas, uma pessoa não pode derramar todo o seu amor sobre uma mesma pessoa, pois não?